[Co5aijfsm-Com-saude] Aparição público da Princípio Ativo - Pedreira em Porto Alegre.

Dênis Petuco dpetuco em yahoo.com.br
Terça Julho 12 01:20:37 BRT 2005


          Amigos:
 
          Nesta segunda-feira, nosso amigo Tiago Ribeiro enfrentou uma pedreira, ao participar de um evento promovido pela Secretaria Municipal de Juventude de Porto Alegre, em parceria com uma série de outras secretaria. Foi o primeiro de uma série de eventos voltados à duscussão de problemas ligados à juventude. O tema deste primeiro evento era as drogas.
 
          O evento contou com dois painelistas: o general Uchoa, da SENAD, e a Carla Bicca, coordenadora do Programa de Atenção a Dependência Química de Porto Alegre. O general foi como tem sido ao longo dos últimos anos: conciliador. Já a Drª Bicca usou de termos fortes para demonizar a cannabis.
 
          O resto, deixarei que o próprio relato de Tiago lhes conte.O primeiro texto é uma respsta dele em nossa lista interna de debates. O segundo é a transcrição de sua intervenção no evento.
 
          [ ]s
          Dênis 
 
 

Diego:

Eu tenho todos os emails trocados nessa lista. E no próprio site da lista, no yahoogrupos, tem todas as msgs arquivadas.


Quanto ao evento, foi uma barbaridade. Escreverei um relato pormenorizado em breve pq o que aconteceu lá foi algo absurdo. Cheguei a ser ameaçado pelo DENARC, me acusaram de apologia. Eu vou postar aqui logo mais o que eu falei lá. Eu e a Cássia escrevemos o texto no intervalo do almoço (os caras disseram que a gente tinha q falar sobre o q tivesse sido dito lá). Assim, tivemos que criar o texto lá na hora. Mas acho que ele ficou legal. Mas ninguém entendeu nada. Foi estarrecedor ver um bando de ignorantes me hostilizando por oferecer um outro ponto de vista sobre as drogas. 


Mantive a calma, falei com tranqüilidade e expus a visão do princípio ativo. Mas não dá. As pessoas riam dos usos terapêuticos da maconha. A psiquiatra que palestrava defendeu a interdição de qualquer usuário de maconha, não aceitou a existência de usos não problemáticos e MENTIU sobre a Holanda e sobre várias coisas relacionadas à maconha: a maconha foi abordada como se fosse uma droga mortal. Pessoal, é sério. 


Eu acho que a gente tem que repensar muita coisa da nossa atuação. a principal delas é que não dá pra se repetir isso: eu tava isolado lá, não tinha ninguém do nosso movimento pra apoiar. Ou seja, sozinho, eu tive que defender a nossa causa. E eu não vou fazer isso de novo. Não tenho vocação pra cristo. Topo fazer a defesa dos nossos princípios, escrever os textos, mas não topo levar a cruz sozinho (mesmo porque fui AMEAÇADO, vocês acreditam??). Impressionante. Então assim, temos que levar isso a sério ou terminar com esse movimento pq do jeito que tá não pode continuar. Precisamos mostrar força, coesão e união, senão a maconha vai ser demonizada de vez e as políticas que aquele povinho tá gestando vão ferrar com a gente. Vai vir repressão da grossa por aí. Se estivéssemos em maior número lá as coisas não teriam sido como foram. Falei bem, tranqüilo e decidido. O texto que fizemos era bem razoável. Mas não era uma questão de argumentos. O que eu vi lá foi uma ditadura disfarçada. É
 lamentável.


Tiago



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Boa tarde, eu me chamo Tiago Ribeiro e estou aqui representando um movimento nascente em Porto Alegre, que é o movimento Princípio Ativo - por uma nova política de drogas. Esse movimento vem aqui apresentar a defesa dos direitos humanos da pessoa usuária de drogas e a defesa de uma nova política de drogas, principalmente no que se refere à maconha. Essa nova política de drogas se pauta na percepção de que a lógica criminalizante, a lógica intervencionista, que exerce um poder compulsório sobre a vida do usuário (seja pela via da criminalização do uso, seja pela da medicalização do usuário), essa lógica não pode funcionar porque não tem norma, não tem regra que funcione realmente só na base da coerção. Nesse sentido, adotar políticas para o usuário de drogas é um erro, ao passo que adotar políticas com o usuário de drogas me parece algo muito mais válido e com maiores possibilidades de êxito. Não acredito em argumentos que desqualifiquem a capacidade intelectual do usuário, como foi
 feito aqui anteriormente.
Então o que eu queria tentar oferecer aqui, nesse tempinho que me reservaram, é um outro modo de se olhar pro fenômeno do uso de drogas e pra isso é fundamental que se pense em uso não problemático de drogas e não só em abuso de drogas. No que se refere à maconha, me parece absurdo, por exemplo, negligenciar o potencial terapêutico dessa planta, o que já é realidade em outros países [nesse momento, falei sobre os casos da Espanha e do Canadá].
Senti falta, na abordagem integrada feita aqui, da perspectiva das humanidades, notadamente das Ciências Sociais e da Antropologia. Essas disciplinas se preocuparam em ouvir usuários de drogas e compreender o sentido que eles dão para o uso de drogas e os contextos nos quais esses usos se desenvolvem.
Quando eu me refiro, aqui, a uso não problemático de drogas, eu estou pensando nos trabalhos de cientistas sociais como Gilberto Velho, Howard Becker e Edward MacRae, que nos apontam pra usos de psicotrópicos que não são, em si mesmos, negativos. Esses autores nos lembram que é a sociedade que atribui sentido às coisas.
Muito do que se considera como sendo um malefício provocado pela substância também já foi apontado por esses pesquisadores como sendo, muitas vezes, fruto do tratamento social dado a esse uso [aqui, lembrei do exemplo da depressão, que tantas vezes é atribuída ao uso de maconha].

Então, será que as drogas são esse bicho de sete cabeças que a nossa cultura pinta? Lembro aqui que se usa drogas há milênios, que todas as sociedades buscaram a alteração da consciência, o êxtase, a experiência transcendente por meio do uso de drogas. Isso sempre fez parte da esfera social. E aqui nós compreendemos muito bem essas atitudes, quando bebemos nossa cervejinha, ou mesmo nosso café. Mas, quando se refere a substâncias que aprendemos a ver como maléficas, como intrinsecamente más, não conseguimos  pensar assim tão claramente.
Por que é compreensível um uso não problemático de álcool, mas não um de maconha? Não seria o caso de rever essa legislação? Que critérios fundamentaram a discussão do que é lícito e do que é ilícito? No caso da maconha, sabemos que sua proibição atendeu a interesses políticos e econômicos e, depois, tornou-se uma ótima forma de controle sobre camadas sociais consideradas perigosas: subversivos, marginais, aqueles que insistem em não aderir aos valores da cultura. 

Eu senti que eu causei um estranhamento aqui. E era essa a minha intenção. Se o narcotráfico movimenta tanto dinheiro assim, e é muito dinheiro, por que não se pensa em trazer essa movimentação financeira pra esfera legal, onde a sociedade poderia exercer um mínimo de controle sobre ela? Se são substâncias que muitos querem e que são perigosas, eu acho que o Estado parece uma instância mais adequada do que o narcotráfico pra oferecer modelos de gestão sobre a produção, comércio e consumo dessas substâncias.

Eu penso agora no caso específico da maconha. O próprio Secretário Nacional Antidrogas afirmou que a regulamentação do cigarro atualmente tem obtido resultados positivos, como a diminuição de consumo. Não seria o caso de se pensar um modelo semelhante para a maconha? Vejam bem que o que está sendo proposto aqui não é um "liberou geral", como alguns querem fazer pensar, mas uma proposta de uma lógica diferente para se pensar a questão das drogas, baseada em informação qualificada sobre drogas e respeito pela autonomia da pessoa. Eu queria deixar aqui uma pergunta final: até que ponto os danos relacionados ao uso de drogas vêm do próprio uso (e aqui penso especificamente no uso não problemático de substâncias como a maconha), até que ponto eles vêm do abuso e até que ponto eles vêm de uma legislação que não compreendeu adequadamente as complexidades, os contextos e os significados envolvidos no uso de substâncias psicotrópicas?






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