[EcoSoLivre] Socialismo do Século XXI
José Monserrat Neto
rijik em ufla.br
Sexta Junho 8 08:16:26 BRT 2007
Prezados,
O artigo abaixo é do Prof. Boaventura de Sousa Santos e, na minha
opinião, é muito interessante.
Boa leitura, Monserrat.
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Socialismo do século 21 - Boaventura de Sousa Santos
Qual o significado desse aparente desmentido do fim da história? Qual o
perfil da alternativa ao capitalismo? Que potenciais e riscos tem?
O Que de mais relevante está ocorrendo a nível mundial acontece à margem
das teorias dominantes e até em contradição com elas.
Há 20 anos, o pensamento político conservador declarou o fim da
história, a chegada da paz perpétua dominada pelo desenvolvimento
"normal" do capitalismo – em liberdade e para benefício de todos –,
finalmente libertado da concorrência do socialismo, lançado este
irremediavelmente no lixo da história. À revelia de todas essas
previsões, houve, neste período, mais guerra que paz, as desigualdades
sociais se agravaram, a fome, as pandemias e a violência se
intensificaram, a China "se desenvolveu" sem liberdade e mediante
violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo
voltou à agenda política de alguns países.
Concentro-me neste último, pois constitui um desafio tanto ao pensamento
político conservador como ao pensamento político progressista. A
ausência de alternativa ao capitalismo foi tão interiorizada por um
quanto pelo outro. Daí que, no campo progressista, tenham dominado
"terceiras vias", buscando achar no capitalismo a solução dos problemas
que o socialismo não soubera resolver.
Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda
política o objetivo de construir o "socialismo do século 21". Desde
então, dois outros governantes – tal como Chávez, democraticamente
eleitos –, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), tomaram a
mesma opção.
Qual o significado desse aparente desmentido do fim da história? Qual o
perfil da alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e
riscos ela contém?
O socialismo re-emerge porque o capitalismo neoliberal não só não
cumpriu suas promessas como tentou disfarçar o fato com arrogância
militar e cultural; porque sua voracidade por recursos naturais o
envolveu em guerras injustas e acabou por dar poder a alguns países que
os detêm; porque Cuba – seja qual for a opinião a respeito do seu regime
– continua a ser exemplo de solidariedade internacional e de dignidade
na resistência contra a superpotência; porque, desde 2001, o Fórum
Social Mundial tem vindo a apontar para futuros pós-capitalistas, ainda
que sem os definir; porque nesse processo ganharam força e visibilidade
movimentos sociais cujas lutas pela terra, pela água, pela soberania
alimentar, pelo fim da dívida externa e das discriminações raciais e
sexuais, pela identidade cultural e por uma sociedade justa e
ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao fracasso no marco do
capitalismo neoliberal.
O socialismo do século 21, como o próprio nome indica, define-se, por
enquanto, melhor pelo que não é do que pelo que é: não quer ser igual ao
socialismo do século 20, cujos erros e fracassos não deseja repetir.
Não basta, porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate
profundo sobre os erros e fracassos para que seja credível a vontade de
evitá-los. Se tal desidentificação em relação ao socialismo do século 20
for levada a cabo, alguns dos seguintes traços da alternativa deverão
emergir:
1.Um regime pacífico e democrático, assentado na complementaridade entre
democracia representativa e democracia participativa;
2.Legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a
figura sinistra do "inimigo do povo";
3.Modo de produção menos assentado na propriedade estatal dos meios de
produção que na livre associação de produtores;
4.Regime misto de propriedade em que coexistem propriedade privada,
estatal e coletiva (cooperativa);
5.Concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a
economia do altruísmo, digamos, entre Microsoft Windows e Linux;
6.Sistema que aprenda e saiba competir com o capitalismo na geração de
riqueza e lhe seja superior no respeito à natureza e na justiça
distributiva;
7.Nova forma de Estado experimental, mais descentralizada e
transparente, de modo a facilitar o controle público do Estado e a
criação de espaços públicos não estatais;
8.Reconhecimento da inter-culturalidade e da pluri-nacionalidade (onde
for o caso);
9.Luta permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da
burocracia ou da lealdade partidária;
10.Promoção da educação, dos conhecimentos (científicos e outros) e do
fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como prioridades
governamentais.
Será tal alternativa possível? A questão está em aberto. Nas condições
do tempo presente, parece mais difícil do que nunca implantar o
socialismo num só país, mas, por outro lado, não se imagina que o mesmo
modelo se aplique em diferentes países. Não haverá, pois, o socialismo,
e sim os socialismos do século 21. Terão em comum reconhecerem-se na
definição de socialismo como democracia sem fim.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS , 66, sociólogo português, é professor
catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
(Portugal). Escreveu, entre outros livros, "A Gramática do Tempo: para
uma Nova Cultura Política" (Cortez, 2006).
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