[PSL-Brasil] FOSS nacional tem jeito?
Anahuac
anahuac em anahuac.biz
Quarta Janeiro 23 19:27:09 BRST 2008
Na última década temos visto o crescimento do processo colaborativo de
desenvolvimento de software através dos princípios do movimento do
Software Livre no Brasil e no mundo. É praticamente inconteste que esse
crescimento é sólido e constante.
Seja pelos seus critérios éticos e morais, seja pela sua forma pouco
ortodoxa de desenvolvimento ou ainda pela primazia nos resultados, o
Software Livre, a cada dia, angaria mais e mais seguidores e até mesmo
fanáticos.
*Entendendo a idéia*
As quatro liberdades definidas pela FSF – Free Software Foundation são
de fato o baluarte da nova ordem tecnológica mundial e pode-se
resumí-las em algo bem simples: não tome para si o que é dos outros, em
termos de software, ou seja, você não tem o direito de se beneficiar do
trabalho alheio para ganhos pessoais. Parece “papo” de comunista, mas não é.
Se você foi capaz de desenvolver uma nova rotina computacional, perceba
que ela não era tão nova assim. O seu brilhantismo só foi possível
graças ao acúmulo de conhecimentos de diversas áreas que lhe foram
ensinadas na escola ou de forma auto-didata. Mas é quase inconcebível
que algo 100% novo e puro surja, de uma mente humana que não tenha
nenhuma informação prévia sobre nenhum tema.
Se lhe parece razoável que o seus conhecimentos não passam de acúmulo do
conhecimento humano em uma determinada área, então a conclusão fica
ainda mais clara: se você pôde aprender e deter o conhecimento de outros
humanos para ter uma “brilhante” e “inovadora” idéia, porque essa idéia
pertence a você? porque ela não pertence à humanidade como um todo?
Esse é o conceito primário sobre o que vem a ser o Software Livre, no
que diz respeito a programas de computadores. Entretanto o raciocínio
acima vale para qualquer conhecimento, ou seja, para tudo.
As pesquisas científicas tem muito disso. Não é 100%, mas está bastante
evoluído, afinal de contas uma nova fórmula química ou um novo
procedimento operatório só terá respaldo da comunidade científica
mundial, se forem fornecidas todas as informações para que esses
procedimentos e fórmulas possam ser testados à exaustão nos mais
diversos ambientes. Está claro que o autor da idéia, da fórmula ou do
procedimento terá os créditos, levará os louros pela sua “genialidade”,
mas, uma vez que a forma de sua concepção foi mostrada para o mundo,
todos os humanos se beneficiam. Tanto pelo seu uso direto, quanto pela
possibilidade de acúmulo de conhecimento para que novos avanços sejam
alcançados.
Então podemos dizer que é éticamente correto explicar aos outros como um
programa de computador está escrito para que outros entendam como se faz
e possam aprender e melhorar os seus programas. E se o mundo atual é
tecnológico e seguindo a mesma linha de raciocínio, todas as tecnologias
deveriam estar disponíveis para estudos e para um maior avanço da
humanidade como um todo. Mas não estão.
Mais de 90% de todas as tecnologias desenvolvidas e consumidas no mundo
não disponibilizam seus métodos e suas rotinas. Por trás desse
“esconde-esconde” há muito mais do que consegue perceber sua vã
filosofia. Interesses corporativos por lucro desmedido. Interesses
governamentais de exploração e controles geopolíticos. Interesses
científicos por reconhecimento e glória. Interesses acadêmicos por
aparecer como o melhor centro catedrático.
A pergunta básica é: porque as pessoas de bem no mundo não fazem nada
para impedir que esse controle seja mantido dessa forma?
*Sobre mim*
Meu primeiro contato com o Software Livre e sua filosofia foi em 1996
quando visitei a INFOR -NORDESTE, na época a segunda maior feira de
tecnologia do Brasil. Por favor seja literal no entendimento da palavra
“feira”. Não passava de centenas de stands querendo comercializar todos
tipo de equipamentos e artigos ligados à tecnologia: desde descansos de
mouse até computadores portáteis. Todos devidamente importados e com
longos históricos de proibição de acesso ao conhecimento. De fato como
são todas as feiras de tecnologia ao redor do mundo.
Mas havia uma exceção: o Gnu/Linux que estava sendo apresentado em um
dos stands. Com alguns anos como professor decidi entender o seu
conceito e não demorou para que ficasse claro que esse era um bom
caminho a seguir. É claro que essa conclusão passava diretamente pela
minha profissão, afinal de contas é isso o que um professor faz:
repassar conhecimento. É claro que estou me referindo aos professores de
verdade e não a corja de acadêmicos imprestáveis que infestam à
universidades tupiniquins.
Já em 2000, entusiasmado pela filosofia iniciei meu próprio projeto
Software Livre, erroneamente batizado de MyConfigurator 2000 que tinha
por objetivo facilitar a configurações de serviços básicos no então cru
ambiente do Gnu/Linux. Já em 2002 decidi criar algum tipo de software
que me permitisse controlar servidores com total mobilidade. Assim
nasceu o LESP-CEL, um programa que permite controlar computadores com
Gnu/Linux conectados na Internet, através de um simples aparelho
celular. Já em junho de 2004 nasceu o JeguePanel
(http://www.jeguepanel.net
<http://www.jeguepanel.net/mambots/editors//>) uma interface de
administração de servidores de e-mail e Samba.
Todos os projetos foram devidamente licenciados pela GPL – General
Public Licence e sempre acessíveis ao mundo, visando atender aos
princípios filosóficos do Software Livre, ou seja, doar à humanidade o
meu pouco conhecimento e minhas poucas idéias.
Concomitantemente também me dei ao trabalho de realizar dezenas de
palestras filosóficas sobre a viabilidade econômica e a necessidade
moral e ética do Software Livre, culminando com uma palestra intitulada
“Complexo de Formiga” onde se discutia exatamente a apatia do terceiro
mundo no aceite das regras comerciais, educacionais, culturais e
tecnológicas impostos pelos países do primeiro mundo.
*Profissionalizando o Software Livre*
Todo esse trabalho foi feito nas minhas horas vagas, ou seja, quase como
um “hobby”. Eu tinha empregos regulares onde o expediente estava bem
definido e a remuneração era compatível com o tipo de trabalho
desempenhado. Dediquei-me integralmente, inclusive de forma
profissional, ao Software Livre.
Tanto que em novembro de 2006 decidi tentar provar que o Software Livre
poderia, além de sua filosofia, ser uma boa forma de renda. Decidi
encarar o mercado e buscar formas de viabilizar o projeto de maior
visibilidade – o JeguePanel – para que se torna-se sustentável. Os
custos iniciais são os de sempre: servidor para hospedagem da página do
projeto, conexão à internet, telefone e muitas horas de dedicação
exclusiva ao seu desenvolvimento e aprimoramento.
A idéia era simples: disponibilizar os fontes e buscar mercado para a
prestação de serviços envolvidos na instalação, configuração,
personalização e capacitação envolvidos no uso de servidores de e-mail e
rede. A velha “cantiga de ninar” de que Software não é produto e sim
serviço.
Além do mais o trabalho seria “compartilhado”, afinal de contas esse é o
espírito do Software Livre: a comunidade colabora no desenvolvimento,
documentação e tradução.
Com bastante esforço e dedicação alcançamos alguns clientes importantes,
especialmente Universidades no Brasil e no exterior. Provedores de
Internet, fábricas e órgãos do governo também aderiram ao uso do
JeguePanel. Infelizmente a grande maioria não colabora de nenhuma forma,
ou seja, não nos enviam relatórios de erros, não realizam contribuições
de código, não colaboram com a documentação, não contratam nossos
serviços e sequer são capazes de colaborar fazendo doações em dinheiro
para o sustento do projeto. Na verdade não somos nem informados de que
eles estão usando o JeguePanel.
Sabemos que a licença não obriga nenhuma das empresas que usam o
JeguePanel a nos informar o que quer que seja, nem a colaborar
ativamente de nenhuma forma. Entretanto entendo que sem nenhuma
colaboração o princípio de funcionamento, ou seja, a força motriz do
Software Livre não existe.
Assim o ano de 2007 foi realmente muito decepcionante, em todos os
aspectos. Por alguma razão, além da minha compreensão, nada pareceu dar
certo, apesar do JeguePanel ter sido baixado por mais de 3.400 pessoas e
empresas ao redor do mundo.
É baseado nessa experiência que decidi escrever este texto enumerando as
dificuldades que tenho encontrado. Quem sabe na busca de soluções reais
e factíveis.
*Entendendo os sintomas do problema*
*Comunidade*
A comunidade brasileira de Software Livre é inepta quando se trata de
desenvolvimento de Software Livre. Na verdade quando se trata de
qualquer trabalho voluntário que esteja diretamente relacionado com o
software em si. Com raríssimas exceções, a maioria esmagadora dos que
realmente atuam em pró do Software Livre no Brasil estão focados na
organização de eventos.
As razões dessa concentração em eventos devem ser várias:
* É muito mais fácil aparecer como “expoente” do Software Livre
organizando eventos do que desenvolvendo software;
* As pessoas que realmente entendem a idéia do Software Livre,
na minha percepção, são mais velhas e portanto se dedicam mais
à organizar os conceitos filosóficos do que o desenvolvimento
de software;
* Brasileiro adora uma “boa farra” e no fundo, um evento não
deixa de ser uma farra!
* Todos acreditam que os eventos realizam o seu papel de
disseminadores da filosofia do Software Livre, o que
terminaria por estimular as pessoas a participarem no seu
desenvolvimento.
O fato é que o uso de Software Livre no Brasil tem crescido muito e não
tenho dúvidas de que um dos motivos é o grande número de grandes eventos
que temos em nosso país continental. Entretanto, aumentar o número de
usuários não deveria, jamais, ser o suficiente.
Como disse antes há exceções. Estes brasileiros de destaque no cenário
mundial do Software Livre e que realmente se dedicam ao desenvolvimento
de software, sofrem de outro mal: “o querer aparecer no mundo”.
A grande maioria deles se preocupa, e talvez com razão, em escolher
projetos internacionais e/ou já solidificados no mercado. É uma
excelente forma de utilizar nosso brilhantismo tupiniquim para “fazer
seu nome” lá fora e ser reconhecido mundialmente. Nesse ponto está claro
que projetos nacionais, mesmo que sejam muito bons não tem o mesmo atrativo.
A consequência direta é que os projetos nacionais, não somente o
JeguePanel, mas muitos outros, simplesmente não recebem ajuda dos poucos
desenvolvedores disponível no Brasil.
O clássico exemplo é o do Kurumim do guerreiro Carlos Morimoto, que
terminou graças ao descaso da comunidade brasileira de Software Livre.
“Quem nunca usou o Kurumim que atire a primeira flecha!”
E como se não bastasse a não colaboração, ainda somos alvos de agressões
e ofensas pessoais gratuitas. Permitam-me explicar: há um componente do
JeguePanel que integra-se com servidores Windows que utilizam Active
Directory. Este componente não é fornecido gratuitamente. Sua licença é
GPL e portanto nos permite cobrar monetariamente pela sua distribuição.
Portanto, para se ter acesso ao componente, é necessário pagar. Isso
enfureceu algumas pessoas e fomos alvos de diversas mensagens
eletrônicas contendo todo tipo de palavreado de baixo calão, inclusive
com referência a parentes e entes queridos.
Definitivamente essa foi a mais desgastante prova da falta de
reconhecimento e maturidade da comunidade de Software Livre Brasileira.
*Academia*
A academia brasileira é provavelmente o setor mais desinteressado de
todos. Eles parecem não entender o valor do Software Livre e de sua
filosofia para os estudantes e para o futuro do Brasil. Eles me lembram
muito aos políticos demagogos que sabem fazer lindos discursos sobre a
educação, mas depois de eleitos nada fazem para que ela mude, visando
manter seus currais eleitorais.
A academia se mantem firme no propósito de concentrar conhecimento em
vez de disseminá-lo, fazendo contratos de colaboração tecnológica com as
grandes do setor tecnológico. O que “per si” é uma dicotomia total e
absoluta, uma vez que essas “grandes” jamais ensinam nada aos
estudantes. Esses contratos de colaboração visam sempre manter o “status
quo” de adestramento no uso de seus produtos e tecnologias e nunca de
estimular o raciocínio e o conhecimento de fato.
Portanto, a colaboração da academia para o Software Livre é extremamente
limitado aos poucos heróicos professores que, de forma isolada e muitas
vezes sob pressão político-acadêmica, insistem em disseminar o conhecimento.
*Mercado*
O mercado é o mais aproveitador de todos. O objetivo dele é um só:
redução de custos a todo custo! Alguém conhece algum banco que invista
diretamente em Software Livre ou em sua comunidade? Até mesmo o Banco do
Brasil que está implementando (olha aí mais um caso de uso e não de
desenvolvimento) Gnu/Linux em todas suas agências, consegue ser controverso.
Faz algumas semanas o Banco do Brasil tornou pública uma iniciativa
chamada http://www.tecnologiasabertas.com.br
<http://www.tecnologiasabertas.com.br/> que tem por objetivo fornecer
ambientes de teste e homologação para desenvolvedores de Software Livre.
São mais de 60 servidores, com alto poder computacional, que podem ser
utilizados para ajudar a comunidade de Software Livre, entretanto eles
pecam mais uma vez: pessoas físicas não podem participar.
Contraditório, uma vez que a “comunidade” é formada, em sua imensa
maioria, por pessoas físicas e não de empresas e ONG's, ou seja, que
tipo de ajuda é essa que não ajuda a quem deveria ajudar? Qualquer
semelhança com a ONU não é mera coincidência.
Outro caso gritante é o da Google. Sim, a gigante dos sistema de buscas
é uma das maiores utilizadoras de Software Livre do mundo. Mantém
praticamente tudo sobre plataforma GPL, e não devolve nada para a
humanidade. Aproveitando-se de uma brecha legal, que diz que as
modificações feitas em softwares licenciados sob GPL somente tem que ser
entregues se o software for distribuído, eles não mostram nenhuma das
melhorias que andam fazendo. Afinal de contas eles não distribuem
software, nós os usamos nos servidores deles.
Legalmente impecável. Moral e eticamente reprovável.
Um aspecto que o “mercado” ainda parece não entender é que o Software é
livre, mas que os serviços envolvidos não são gratuitos. Muito comum
recebermos mensagens de insulto por cobrarmos para prestar serviços de
instalação e configuração. Que absurdo!!!!
No demais é o de sempre: sugar até onde for possível, gastando, sempre
que der, nada. Por incrível que pareça o projeto JeguePanel nunca
recebeu qualquer tipo de doação ou contribuição de nenhuma empresa, ONG,
órgão do governo ou pessoa física.
*Conclusão*
Projetos de Software Livre, no Brasil, sem apadrinhamento financeiro
estão fadados à falência. Infelizmente o JeguePanel está a ponto de não
ser mais mantido por falta de ajuda comunitária, voluntária, de mercado
e especialmente financeira.
A partir deste momento estou procurando emprego regular para poder
sustentar o JeguePanel como “hobby” até o dia em que o projeto consiga
pagar as contas de casa. Afinal de contas trata-se de Software Livre e
não de software+desenvolvimento+correção de
bugs+personalização+documentação gratuitos.
Acredito plenamente na filosofia do Software Livre, mas depois de toda a
experiência adquirida não vejo como projetos pessoais baseados nela
conseguirão se manter e crescer. Especialmente com o comportamento de
“Gerson” que ainda persiste em nosso país.
Apesar de ser constrangedor, este também é um pedido de emprego.
Definitivamente não consigo mais sustentar a situação e o projeto nas
condições atuais. Portanto se você sabe de alguma empresa precisando dos
serviços de um experiente administrador de redes, por favor me avise. Segue:
E-mail: anahuac em anahuac.biz <mailto:anahuac em anahuac.biz>
Curriculum Vitae: http://tinyurl.com/3cg569
Saudações Livres,
Anahuac
JeguePanel – http://www.jeguepanel.net
--
Projeto JeguePanel
http://www.jeguepanel.net
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